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Toda viagem é mesmo uma "experiência"? 04/02/2010

Viagens em geral são, no sentido literal, experiências, porém muitas vezes ficam aquém do sentido e significado de uma experiência mais profunda no sentido épico, filosófico ou, especialmente, existencial. Há experiências medíocres, ordinárias e banais. Há serviços que são prestados e recebidos com absoluta frigidez, de forma mecânica e sem nenhum impacto em nossas vidas. Nem todo serviço ou viagem são experiências que mereçam ser repetidas ou marcam nossas vidas de maneira significativa. A experiência tem a ver com emoção e com o prazer, não com o sentimentalismo e a acomodação estéril.

Muitas experiências de viagem não são memoráveis, intensas ou promovem um entretenimento, educação, fuga ou estética que provoquem um "uau!" no turista ou espectador. Uma viagem especial exige pessoas e condições especiais. Isso não significa apenas poder econômico, mas fundamentalmente atitudes e posturas sociais, culturais, estéticas e políticas.

Um amigo relata uma pescada (matrichã e tucunaré) degustada em um restaurante rústico de Manaus como uma experiência gastronômica similar às vivenciadas na Toscana ou no Languedoc. Digo o mesmo da torta de caranguejo, um prato típico do Maranhão e do Piauí, ou das moquecas feitas em vários estados brasileiros. Sem contar as carnes de churrasco acompanhadas por vinho tinto nos rincões gaúchos ou os restaurantes excelentes de São Paulo ou Rio de Janeiro.

A mídia e o marketing embalaram parte dos serviços para que parecessem ser mais interessantes e atraentes. Depois que Barnum criou a expressão "o maior espetáculo da Terra", qualquer circo de periferia, cantina de bairro ou agência de viagem pode usar esse tipo de pseudo-argumento como publicidade de seus produtos ou serviços (a cerveja mais gelada de São Paulo; o genuíno churrasco gaúcho; a moqueca capixaba é a única original; o carro mais seguro em sua categoria; a praia mais linda do Brasil). Tudo isso são palavras vãs que iludem apenas os tolos.

É completamente diferente quando se analisam os rankings internacionais dos restaurantes premiados pelo guia Michelin, os 50 melhores da lista S. Pellegrino, publicada anualmente por Restaurant Magazine ou a lista brasileira de gastronomia preparada pela equipe da revista 4 Rodas. Ou ainda os rankings da Conde Nast Traveler ou da National Geographic Travel.

A verdade é que o turismo de massa nivelou por baixo a experiência de viajar e isso é detectado há muito tempo. "Ele não pensava em si mesmo como turista: era um viajante. A diferença era, em parte, uma diferença de tempo, ele explicava. Enquanto o turista geralmente volta depressa para casa ao fim de algumas semanas ou meses, o viajante, que não pertence a um lugar mais que a outro, se locomove devagar, ao longo de período de anos, de uma parte da terra a outra. ... Porque, como ele dizia, outra diferença importante entre turista e viajante é que primeiro aceita sua própria civilização sem questionar; não é assim com o viajante, que compara seu país com outros e rejeita os elementos que não estão a seu gosto." Essa visão de Bowles, expressa em O céu que nos protege, pode até ser encarada como algo elitista, proveniente de uma classe burguesa aristocrática que não precisa trabalhar e pode deleitar-se pelo mundo em busca de experiências intensas ou até mesmo limites. Mas a precisão da crítica em relação à cegueira alienada que o turista possui de seu país ou cultura é um fato crucial no turismo contemporâneo.

Os efeitos dúbios da globalização colocaram um manto de cenários pré-estruturados sobre vários lugares do planeta, mas as regionalidades continuam a se expressar de maneiras fortes e constantes, inclusive com o auxílio das novas tecnologias e das possibilidades abertas pela própria globalização, mas os turistas ordinários continuam em seu caminho às cegas pelos fluxos do mundo.

Jean-Didier Urbain insiste nessa divisão, afirmando que o viajante critica o turista por introduzir relações mercantis nas viagens, reduz práticas vitais a um mero jogo ou esporte (caça, pesca, observar a fauna e a flora), perverte as tradições e favorece a luxúria. Mas há uma crítica maior: o turista banaliza o mundo. "Com sua presença, o turista destrói a mística da revelação. Dissolve o choque emocional e substitui a alegria do descobrimento pela diversão morna de uma visita que beira a profanação. ... O turista banaliza e a banalidade turística varrerá todas as diferenças que, ao atravessá-las, davam então o sentido à viagem."

Esse é o problema que envenena a possibilidade de uma experiência com estilo próprio: a banalização ou a oferta do trivial, como engodo ou simples cenário, no lugar da profunda experiência de uma viagem destinada ao prazer mais profundo do auto-conhecimento, da descoberta e da possibilidade de aventura que nos deixe mais seguros de nossa existência como seres humanos. Esse faz-de-conta envolve os pacotes turísticos banais, os fluxos turísticos de massa e uma série de serviços igualmente ordinários: alimentação, hospedagem, transporte, varejo, entretenimento, artes e cultura em geral.

A tentativa de inserção de qualquer tipo de serviço destinado ao lazer, ao turismo ou ao entretenimento, como sendo uma "experiência" é uma farsa, um pseudo-mito que encontrou um meio de expressão em técnicas elaborados de marketing e publicidade para potencializar lucros com produtos e serviços que, na maior parte das vezes, são meramente bons ou corretos, quando não corriqueiro, vulgar, produzido em massa para as massas.

Há evidentemente a viagem como "experiência" em grande estilo, mas envolve uma série de atitudes e saberes, como veremos adiante. E há as experiências dúbias e contraditórias que mesclam o fluxo do turismo de massa com a possibilidade de se vivenciar uma experiência profunda e transformadora de viagem. Almoçar na torre Eiffel; tomar um café na praça de San Marco, em Veneza; ir a uma festa em Amsterdã; fazer uma massagem terapêutica (ou sexual) em Bangkok ou em Phuket; participar de uma cerimônia do chá em Hangzhou; ver (ou participar) do carnaval no Rio, Salvador ou em São Paulo; mergulhar em Bora-Bora; participar de um jantar em um navio de cruzeiros com três mil passageiros são experiências que podem ser interessantes apesar dos parâmetros estereotipados, considerados "exóticos" ou permeados pelo kitsch, que envolvem o turismo de massa.

Paradoxalmente, o turismo social, de aventura ou realmente ecológico (essa é outra área onde os embustes são comuns) ou o turismo de luxo, altamente exclusivo, representam os polos onde as possibilidades de se vivenciar uma experiência mais profunda são mais existentes e possíveis.

Outra mescla interessante é a união do turismo de luxo com o turismo ecológico. Hotéis como Explorer, na Patagônia ou no deserto de Atacama; alguns paradores espanhóis (apesar de não serem estritamente luxuosos, mas certamente de bom gosto); hotéis boutique ou sofisticados localizados em lugares paradisíacos; ilhas privadas com hotéis e pousadas exclusivas; a viagem suborbital a ser inaugurada em breve; os cruzeiros marítimos ou fluviais exclusivos; hotéis submarinos; centros de entretenimento luxuosos como Sun City, em Las Vegas; as expedições à Antárctica ou ao Everest são exemplos de como a estrutura global de viagens pode oferecer serviços diferenciados e realmente exclusivos. Mas isso é para uma faixa ínfima da população que pode pagar por esses serviços ou para as celebridades (esportistas, artistas, apresentadores, políticos etc.) que são convidados para dar prestígio a certos empreendimentos.

A lucidez de Lipovetsky ajuda a equacionar essa problemática: "Além dos equipamentos e dos produtos acabados, as indústrias de lazer trabalham hoje com a dimensão participativa e efetiva do consumo, multiplicando as oportunidades de viver experiências diretas. Já ao se trata mais apenas de vender serviços, é preciso oferecer experiência vivida, o inesperado e o extraordinário capazes de causar emoção, ligação, afetos, sensações. ... A civilização do objeto foi substituída por uma 'economia da experiência', a dos lazeres e do espetáculo, do jogo, do turismo e da distração. É nesse contexto que o hiperconsumidor busca menos a posse das coisas por si mesmas que a multiplicação das experiências, o prazer da experiência pela experiência, a embriaguez das sensações e das emoções novas: a felicidade das 'pequenas aventuras' previamente estipuladas, sem risco nem inconveniente." 

São momentos e eventos paradoxais. As cidades tornaram-se mais hedonistas, mas anti-dionisíacas. É um prazer estéril, controlado, medido, pesado, discriminado e catalogado. Parte simulacro, parte real, parte virtual, parte simbólico.

Em suma, a viagem só é uma experiência gratificante quando é intensa, bem estruturada e executada, quando muda a vida e a história do viajante e o faz encarar o mundo com olhos mais perspicazes. O que supera a banalidade, a vulgaridade e o engodo, pode tornar-se experiência fascinante. Depende muito do que o viajante busca e como busca, principalmente se ele já se encontrou consigo mesmo e conhece a si mesmo o suficiente para poder conviver pacificamente com seu eu interior.

Historicamente a maior viagem é o encontro consigo mesmo em um mundo estranho.

 

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