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O que realmente nos encomoda? 21/01/2010

O comportamento do consumidor brasileiro de viagens é estranho. No réveillon, por exemplo, os passageiros do Vison of the Seas não viram os fogos da praia de Copacabana porque o comandante posicionou o navio distante da praia e houve o maior tumulto. Fizeram blogs, contataram advogados, foram à imprensa e a história promete ter desdobramentos jurídicos. Os passageiros estão certos, afinal, comprar um cruzeiro para ver fogos e ficar só com a fumaça no céu é frustrante.

Por outro lado, 6 mil pessoas ficaram de uma a três horas para embarcar nos navios no Porto de Santos (sábado, 9 de janeiro) e quase ninguém reclamou. O "quase" é porque eu reclamei, afinal, ficar numa fila, no sol, sem comer ou beber, para um simples embarque em um cruzeiro de uma semana é um absurdo. Reclamei também no meu blog e tive duas censuras de amigos porque eu comprometia a imagem da cidade de Santos. Ora, quem compromete a imagem do Brasil perante nacionais e estrangeiros não sou eu, é o próprio porto que oferece serviço ineficiente, impróprio e contra todos os padrões mínimos de hospitalidade.

Até quando as autoridades portuárias de São Paulo e as empresas de navegação serão irresponsáveis a esse ponto? Até quando os agentes de viagens e os passageiros ficarão calados perante essa incompetência repartida entre o setor privado e o setor público?

Segundo o site www.portodesantos.com.br são esperados 20 navios de passageiros entre 21 a 31 de janeiro; 52 navios, em fevereiro; 58 navios em março; e 19 navios em abril. São números significativos para o setor, então falta competência e vontade política para sanar de vez esse descaso para com os passageiros de cruzeiros. Existe a burocracia e ineficiência das empresas marítimas, a burocracia estatal e a falta de infraestrutura adequada para atender os embarques. Basta analisar portos como San Juan, Miami, Fort Lauderdale, Dubai, Cingapura, Sidney, Nápoles, Civitavecchia ou Hong Kong para entender o nível de dignidade exigido por pessoas que pagam tarifas consideráveis - sem contar os gastos a bordo - para suas férias.

Outro problema que aparece de vez em quando na grande imprensa, mas que persiste e não vejo reclamações mais severas dos passageiros ou das agências e operadoras de turismo, é sobre os desembarques internacionais matinais do aeroporto Franco Montoro (Guarulhos). Toda manhã as pessoas ficam no mínimo uma hora (em média umas duas horas) para atravessar a imigração, buscar a mala e passar pela alfândega. Por quê? Não há espaço físico razoável e as autoridades (Infraero, Polícia Federal, Receita Federal) não tomam medidas para viabilizar um maior conforto para os passageiros. Por que as pessoas não reclamam? Porque viajam poucas vezes ao exterior? Porque sentem-se privilegiadas e envergonhadas de exigir diretos básicos num aeroporto internacional? Porque não é elegante?

Já passou do momento das autoridades, empresários e o público pagante (pagam tarifas, impostos, taxas) exigir seus diretos e denunciar o absurdo que é o atendimento em portos e aeroportos. Por que países em desenvolvimento como Malásia, Tailândia, China ou Chile - sem contar os países desenvolvidos -, têm instalações decentes e eficientes para embarques e desembarques, e nosso país continua com um discurso ufanista sobre o turismo ao lado de práticas irresponsáveis e degradantes?

É como se a ideia que temos do turismo nacional fosse a de uma Ferrari reluzente, mas com motor 1.0 e rodas de bicicleta. As melhorias portuárias e aeroportuárias exigidas para nosso uso cotidiano, para a Copa e as Olimpíadas, passam pela infraestrutura minimamente funcional e isso não existe em São Paulo, o principal Estado da federação. Temos metrôs, rodovias excelentes, trens metropolitanos sendo incrementados, mas não conseguimos quebrar os interesses dúbios e arcaicos que inibem as melhorias estruturais nesses setores. Tudo é "explicado" ou contornado/ignorado pela burocracia rançosa, que vê as críticas com má-fé e ressentimento.

Reclama-se de problemas pontuais (o avião atrasou, perdi minha bagagem, o navio não parou para ver os fogos de réveillon), mas cala-se ante as desgraças estruturais de nosso turismo.

É hora de as agências de viagens, operadoras, transportadoras, órgãos de classe, o trade em geral e os próprios passageiros tomarem medidas eficazes contra essa situação. Por que a sociedade se cala? Por que as pessoas ficam nas longas filas, quietas como ovelhas? Não há motivos razoáveis, talvez apenas argumentos vergonhosos que sequer podem ser nomeados...

 

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